noticia - jornal do fundÃO

Numa tradição herdada do único proprietário da loja da aldeia, os moradores ainda hoje quando precisam, vão à mercearia, servem-se, e apontam eles próprios na caderneta o que levam. As contas, fazem-se depois

São perto de 45 quilómetros de curvas e contracurvas, a partir da Covilhã, para se chegar ao anexo de Alvoco da Serra (com a abertura do túnel – 600m – no alto da Alvoaça, a distância diminuiria em mais de 15 quilómetros), Vasco Esteves de Cima. Um aglomerado de casas típicas bem conservadas e outras bem reconstruídas. Os espaços entre as moradias não admitem a passagem de veículos. Devido às acentuadas inclinações dos terrenos, nunca até ali existiram quaisquer tipo de animais domésticos (burros, vacas, cavalos, etc.). O amanho das terras foi sempre feito à força do braço humano. As casas alcandoradas na serra, algumas ainda com telhados em xisto, rodeadas de socalcos onde imperam videiras, árvores de fruto e algumas hortas, mais parecem incorporar um autêntico presépio. Segundo o, presidente da Junta de Freguesia, António Alves, a população residente, com idades superiores aos cinquenta anos, rondará os 70 habitantes. Aumenta nos fins-de-semana, atingindo o expoente máximo em Agosto, data em que se reúnem centenas de familiares, oriundos de vários pontos do país e estrangeiro. Não havendo espaço físico para a construção de mais habitações ou exploração agrícola, desde há muito anos que os homens da localidade procuram melhores condições de vida noutras paragens. Foi assim para o Brasil e depois para a Argentina. Daqui regressaram na década de 50 dando origem a um baby boom. Os “argentinos” longe das esposas tentaram recuperar o tempo. Os que tinham deixado filhos ainda pequeninos, assistiram ao casamento dos mesmos. Houve então um aumento de natalidade invulgar. Nasceram doze crianças, sendo que nalguns casos houve quem tivesse sido pai e avô no mesmo ano. A localidade é de facto pequena. Mas as histórias são inúmeras. Junto da capela de Nossa Senhora do Bom Parto, situa-se o Centro Cultural e Recreativo de Vasco Esteves de Cima. Local de encontro da terra, quer para a realização de festas, convívios, casamentos ou simplesmente para se ver a TV ou para uma partida de “Chincoin” – jogo de cartas com cinco participantes, trazido da Argentina e que, julga-se, em Portugal só aqui se joga.


É este espaço que mantém ainda outra actividade “herdada” do famoso Zé da Horta, dono do único estabelecimento comercial onde havia tudo. O Zé da Horta enviuvou. Quando tinha de se deslocar a Coimbra, Seia ou à Covilhã, deixava um cartão na porta do estabelecimento informando: “Fui a Seia. Se precisarem de alguma coisa entrem, sirvam-se e assentem na caderneta”. E assim era. O comerciante faleceu e foi a colectividade a resolver o problema. Desde congelados, mercearia... ali há de tudo. Alguns dos sócios, sobretudo os que vivem fora, têm uma chave que lhes dá acesso aos produtos a qualquer hora. Em cima de uma mesa lá continuam as cadernetas onde se anota o que se leva. No fim do mês acertam-se as contas. Berço do fundador da Sociedade Industrial de Penteação e Fiação de Lãs de Unhais da Serra, Pe. Alfredo dos Santos Marques, cujo nome foi dado à Barragem do Covão do Ferro, que também foi construída por sua iniciativa, Vasco Esteves de Cima, tem a viver lá uma anciã de que se orgulha. Maria de Jesus nasceu a 12 de Abril de 1907. Tem tido uma vida de trabalho, mas em compensação tem uma saúde invejável. À parte da “vista um pouco fraca”, ainda se movimenta bastante bem. Trabalhou sempre no campo. E foi num desses dias de trabalho, tinha então 95 anos, depois da apanha da azeitona, que ao chegar a casa tossiu um pouco, provável princípio de alguma constipação. Uma vizinha adverte-a: “Isso deve ser gripe, vai ao médico para te tratar”. Resposta imediata: “eu estou farta de trabalhar todo o dia. Vai lá tu que não tens nada que fazer!...”


Numa outra ocasião um problema mais grave afectou-a, tendo que ser internada no hospital em Coimbra. Perdeu a consciência. Quando veio a si, viu-se rodeada de médicos e enfermeiros vestidos de branco que sorridentes a animavam e lhe perguntaram o que queria comer. Muito surpreendida, sem saber onde estava, respondeu: “não percebo. Então aqui também precisamos comer?” (Pensava estar no céu). A história contou-a ao “JF” quando a visitámos. “Veja lá onde já se viu isto. Depois de morrer foram levantar-me para me darem de comer. Ora se já tinha morrido não tinham nada que me levantar.” Após mais uns minutos de conversa dirigiu-se à capela para rezar. À entrada vira- -se para nós e informa: “podeis ir embora que eu ainda demoro um pouco. Ainda tenho que fazer a Via Sacra”. E lá ficou.

 

 

Fonte: http://www.jornaldofundao.pt/noticia.asp?idEdicao=105&id=5673&idSeccao=998&
Action=noticia
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