Zé da Horta

Corria a década de cinquenta. As populações  rurais deste país debatiam-se entre a falta de trabalho e um futuro sem horizontes nem esperança.

Nas serranias da Estrela os povoados dispersos não escapavam ao destino de uma vida madrasta. Aqui e ali surgiam bolsas de fome.

Vasco Esteves de Cima era um pouco isto. Aglomerado rural com casario em granito e telhados de xisto, a população a viver da pastorícia e da agricultura de subsistência. A emigração era ainda mal conhecida e aqueles que ousaram debandar outras paragens tinham apenas as Minas da Panasqueira como remota probabilidade de trabalho. Uma escola a dois quilómetros (no povo de baixo) tornava-se uma aventura para as crianças que a frequentavam, sobretudo no Inverno quando as condições de isolamento daquela terra se faziam sentir.
 

Nesse cenário de alguma pobreza e grande isolamento A LOJA DO ZÉ DA HORTA era para todos aqueles que a procuravam um sinal de esperança e um oásis perdido na serra.

Ponto de encontro obrigatório para os forasteiros era nela que se reuniam e nesse porto de abrigo sempre encontravam alimento para prosseguir a jornada.

Aos domingos os habitantes dos povos vizinhos vinham abastecer-se de víveres e outros géneros para a semana, sem terem a necessidade de pagar a pronto. Ali deixavam e recebiam mensagens de pessoas que desejavam contactar.

Não havia vendedores, caixeiros, almocreves e forasteiros que demandassem a serra e não conhecessem o Zé da Horta.


Homem simples, mas bom. Da família herdou o nome da Horta: do pai a arte de funileiro que acabaria por abandonar para se dedicar mais ao comércio.
Uma arte porém nunca perdeu: a capacidade de ser solidário, afinal o grande carisma de que era portador e o torna amado aos olhos de todos.

Recordo a disponibilidade como recebia todos os forasteiros em sua casa, o entusiasmo e a atenção que dispensava aos jovens e menos jovens, a alegria patenteada quando todos se juntavam perto do terreiro da sua casa para os bailaricos dominicais.

Recordo o pragmatismo de vida quando uma vez surpreendeu a mulher inconsolada por os lobos pela segunda ou terceira vez, lhe terem dizimado umas cabras: «Deixa lá mulher eles gostam mais delas e enquanto houver comem das nossas».

Recordo esse desprendimento das coisas  e a disponibilidade paras ajudar os outros.
Quem não se lembra de ter recorrido ao Zé da Horta  quando precisou de alguma coisa?

Sem ser juiz da paz, foi árbitro de questiúnculas e um referencial   de consensos das coisas da terra. Para tudo era ouvido e por todos respeitado.

É perante o exemplo de vida deste homem que hoje me detenho e lhe presto homenagem, ainda mal refeito da surpresa da  notícia causada pela oferta de venda da sua loja.

Certamente no futuro próximo não teremos mais à nossa disposição uma loja franca de fraternidade, onde todos podem entrar e servir-se, deixar dinheiro e fazer o troco ou anotar a despesa feita.

A loja do Zé da Horta é por tudo aquilo que representa um património não apenas do povo de Vasco Esteves de Cima ou de muitos outros que ao longo de anos a procuraram , mas uma referencia  cultural do próprio Parque Natural da Serra da Estrela, como oportunamente bem o reconheceu o Dr. Alberto Martinho.

Por tudo isto é devida a evocação, em jeito de homenagem.